A guerra na Ucrânia — “Dia 436 da guerra russo-ucraniana: porque tarda a contra-ofensiva de Kiev?”  Por Laurent Schang

Seleção e tradução de Francisco Tavares

9 m de leitura

Dia 436 da guerra russo-ucraniana: porque tarda a contra-ofensiva de Kiev?

 Por Laurent Schang

Publicado por em 9 de Maio de 2023 (original aqui)

 

A guerra russo-ucraniana não pára. No dia 436 da guerra, o nosso especialista militar, o historiador Laurent Schang, faz o ponto da situação: forças presentes, homens e equipamentos, perdas, perspectivas… O mínimo que se pode dizer é que o equilíbrio de forças não está a favor das forças ucranianas. Enquanto Kiev anuncia, há semanas, uma contraofensiva brilhante destinada a quebrar a linha da frente russa, o equilíbrio das forças no terreno não reflecte esse otimismo. A análise clinicamente exacta da situação, feita por Laurent Schang, é disso prova cabal.

 

De que reservas dispõe o exército ucraniano?

Agora destruído, o primeiro exército ucraniano (no sentido cronológico) era constituído por quatro corpos de exército (260.000 homens) quando foi lançada a “operação especial”; o segundo exército, também considerado destruído, era constituído por 100.000 homens, alguns dos quais equipados com material da NATO; o terceiro, estimado em cerca de 50.000 homens – a força de um corpo de exército de 2022 – está envolvido na região de Bakhmut, e um quarto exército está atualmente a ser formado, com uma força equivalente à do terceiro exército. As restantes reservas, incluindo os feridos ligeiros e as últimas tropas mobilizadas, estão estimadas entre 50.000 e 70.000 homens.

O número de voluntários estrangeiros – cerca de 20.000 no verão de 2022 – estaria reduzido hoje à dimensão de um batalhão (1.500 homens).

120.000 soldados ucranianos estão, ou poderão vir a estar, destacados na zona mais ativa da frente, de Lyssychansk a Donetsk. Recorde-se que a linha de contacto é muito longa, com 1.200 km, desde a Bielorrússia até ao Mar Negro. Do outro lado, 290.000 soldados russos (independentemente do que a imprensa ocidental possa dizer, o SMP Wagner obedece às ordens do alto comando russo) e tropas aliadas mantêm o terreno conquistado.

 

Quais foram as perdas de ambos os lados?

As estimativas diferem segundo as fontes: segundo a NATO, 120.000 a 150.000 soldados ucranianos foram mortos em combate, contra 200.000 soldados russos; segundo os serviços secretos israelitas, as Forças Armadas Ucranianas registaram 157.000 mortos e 234.000 feridos (dois exércitos em plena força, segundo o padrão de 2022), contra 18.500 mortos e 44.500 feridos do lado da Rússia (números de Fevereiro de 2023). Em Bakhmut, o epicentro dos combates desde há vários meses, o grupo Wagner terá perdido uma média de 150 contratados por semana, contra 1500 a 3000 soldados do lado de Kiev (1 a 3 batalhões), segundo um alto oficial ucraniano.

 

Que contraofensiva ucraniana?

Muitos prevêem que está iminente, uma vez que Kiev precisa dela para apoiar os seus pedidos de equipamento, mas com que objetivos e com que recursos? A maioria dos analistas anglo-saxónicos concorda que a principal ofensiva mecanizada terá lugar na linha da frente Kherson-Zaporijjia. Se for bem sucedida, poderão surgir dois eixos de ataque: em direção a Melitopol, no sul, e em direção a Berdiansk, no norte. O que resta saber, para além do nível tático, é como irão dar seguimento às brechas assim criadas.

A história demonstrou que a massa pode (raramente) ser contrariada. A desproporção dos meios terrestres (rácio 1:10) e aéreos empenhados por ambas as partes joga contra os ucranianos. Os números falam por si: de acordo com um relatório recente da Comissão Europeia, as Forças Armadas Ucranianas dispararam um máximo de 7.000 obuses por dia desde o início da Operação Militar Especial, contra 50.000 do exército russo. Os ucranianos sabem que têm de agir rapidamente: vários responsáveis norte-americanos anunciaram na imprensa que, ao ritmo atual das entregas, as reservas de munições dos Estados Unidos estarão esgotadas antes do final do verão de 2023.

Documentos filtrados do Pentágono referem-se a 15 brigadas (45.000 homens), 12 das quais estão equipadas ao estilo ocidental. De momento, a ofensiva ucraniana foi oficialmente adiada por razões climatéricas. Podemos também interrogar-nos se o empenhamento maciço dos ucranianos em Bakhmut não exclui qualquer possibilidade de recuperar a iniciativa noutros pontos da frente.

 

Quais são os objectivos dos russos?

Com a chegada do inverno, o exército russo adoptou uma postura defensiva, para se cuidar (por exemplo, o consumo de obuses terá baixado de 50.000 para 10.000 por dia), recrutar, formar o seu pessoal e reconstituir as suas reservas.

As Forças Armadas Russas já não estavam a obter ganhos significativos no terreno, mas estavam a consolidar os seus ganhos enquanto se preparavam para o que está para vir. Apesar de certas declarações (nomeadamente a fantasiosa do General Milley, que afirmava que os russos já tinham perdido 100.000 homens em Bakhmut), Bakhmut mais parecia ser um obstáculo utilizado pelos russos para esgotar o inimigo, sangrando-o, do que o seu oposto (Verdun e Estalinegrado são frequentemente mencionados). Vimos acima quem desgastou mais o outro.

Em vez de um regresso precipitado à ofensiva na zona mais fortificada do Donbass, o alto comando russo privilegia atualmente uma guerra de desgaste, com uma tática de lenta mas progressiva mordidela das forças inimigas. Não podemos, portanto, falar de uma guerra total, mas sim de uma guerra de intensidade média.

De uma forma mais geral, ao apostar numa guerra industrial, Moscovo ganhou uma vantagem estratégica sobre o Ocidente que muitos analistas não ocidentais (mas também um número crescente de analistas ocidentais) consideram irreversível.

No 14º mês da Operação Militar Especial, as Forças Armadas Russas estão, afinal, a manter a iniciativa.

 

Porquê o “picador de carne” de Bakhmut?

Em russo Artemovsk (Bakhmut), esta cidade situada na estrada para Slaviansk e Kramatorsk tem um valor estratégico para a posse do Donbass.

Neste momento, a ação concentra-se num troço da frente que vai de Soledar (N) a Marïnka (S, nos arredores da cidade de Donetsk), duas cidades separadas por 100 km em linha reta. Os combates estão a ter lugar a oeste de Soledar (sob a bandeira do DPR desde 17/01/2023), em Krasna Hora, Bakhmut e Avdiivka. Embora não constitua um verdadeiro saliente, a posição avançada de Bakhmut coloca-a na ponta da linha da frente do Donbass, com vista para a linha fortificada ucraniana de Toretsk-Avdiivka-Marinka.

Um avanço das Forças Armadas Ucranianas (FAU) a Norte de Bakhmut permitir-lhes-ia, através de um movimento de viragem para Sul, cercar o grupo Wagner. Foi por isso que as Forças Armadas Russas colocaram grandes forças mecanizadas entre Krasna Hora e Soledar. A tomada de Bakhmut, por outro lado, permitiria às Forças Armadas Russas virarem a linha defensiva ucraniana do avesso e avançar em terreno aberto em direção a Kramatorsk.

Em ambos os casos, as linhas de abastecimento inimigas estão na mira, com a diferença de que os russos têm a vantagem numérica e o controlo total da sua retaguarda.

50% das FAU estão atualmente concentradas no sector de Bakhmut (número fornecido pelo general ucraniano e chefe do Estado-Maior Zaluzhny). Outros números estão a circular – devendo ser tomados condicionalmente – com 30 brigadas ucranianas identificadas, ou seja, 3.000 x 30: 90.000 homens e várias centenas de peças de equipamento. O dobro das forças previstas para a contraofensiva da Primavera (Verão?), segundo os documentos do Pentágono. Por outro lado, o grupo Wagner só dispunha oficialmente de 15.000 homens.

Como qualquer combate numa zona urbana, a batalha de Bakhmut está a decorrer a um ritmo lento, com a destruição infligida pela artilharia (principalmente russa) a complicar quer o progresso dos atacantes quer os contra-ataques ucranianos – como vimos com a captura da câmara municipal de Bakhmut; também o vimos em Mariupol em 2022.

Além disso, a sua configuração (terreno plano, vistas desimpedidas) torna-o ideal para o disparo direto de mísseis, para a implantação de unidades de tanques e para a utilização de drones suicidas.

 

Porquê Wagner?

A Operação Militar Especial demonstrou, logo na Primavera de 2022, que os BTG (grupos tácticos de batalhão) russos, apesar de disporem de um grande poder de fogo (artilharia + blindados), estavam demasiado pouco equipados com infantaria. A recusa de utilizar recrutas (que teriam de ser formados de qualquer forma) revelou também a fragilidade estrutural das Forças Armadas Russas. 80.000 soldados russos estiveram envolvidos na operação especial, o equivalente a 5 divisões do Pacto de Varsóvia. Ou seja, um soldado de infantaria russo contra três ucranianos: a dimensão de uma força expedicionária.

Tirando lições do ano que já decorreu, o exército russo está a transformar-se, o que levará tempo. A reforma militar de 2008, inspirada no modelo ocidental, foi abandonada (declaração do Ministro da Defesa Shoigu) e as Forças Armadas Russas estão a regressar ao formato de divisão. Incluindo o pessoal contratado, o exército russo conta atualmente com 1,5 milhões de homens. Ao mesmo tempo, há a questão do equipamento, do seu fabrico, entrega e entrada em serviço. A utilização de sistemas de armas, lançadores de foguetes, lançadores de mísseis, drones, etc., exige uma formação avançada. É por isso que, atualmente, apenas a elite das Forças Armadas Russas está envolvida nos pontos quentes: tropas navais, pára-quedistas e os profissionais experientes do grupo Wagner. As unidades das repúblicas do Donbass e da Chechénia, que não fazem parte deste grupo, estão, tanto quanto sabemos, estacionadas na defesa.

 

E quanto aos tanques de guerra?

No início do conflito, a Ucrânia tinha 900 tanques de batalha operacionais, todos de conceção soviética (principalmente T-64 modernizados e fabricados localmente), mais cerca de 1.000 outros em stock. Atualmente, 1/3 desta frota foi destruída e 1/3 está fora de serviço (fonte: Oryx, Janeiro de 2023). As importações desde Fevereiro de 2022 totalizam 410 tanques da era soviética + 300 VCI (veículos de combate de infantaria) da mesma origem, 1 100 VBTT (veículos blindados de transporte de tropas), alguns dos quais ocidentais, 300 obuses rebocados, 400 canhões autopropulsados (número teórico, nem todos chegaram), 95 LRM (lançadores múltiplos de foguetes) + cerca de 500 peças de equipamento russo recuperadas e devolvidas.

Para isso, os exércitos da NATO tiveram de recorrer aos seus stocks. A improvisação está na ordem do dia, como o demonstra a idade dos tanques pesados entregues ou prestes a serem entregues, e o carácter de manta de retalhos de todo o pacote. Os Abrams americanos prometidos ainda não foram construídos (para informação, o exército americano tem 2.500 Abrams activos + 3.500 em reserva), a Polónia e o Canadá comprometeram-se a entregar Leopard 2 (anos 1970) modernizados, e cerca de 300 Leopard 1 (anos 1960) modernizados deverão chegar da Alemanha, dos Países Baixos e da Dinamarca nas próximas semanas/meses, mais 14 Challenger 2 britânicos (anos 1990). 50 VCIs Bradley americanos, um número indefinido de AMX-10RCs franceses (tanques ligeiros de 6×6 rodas) e 40 VCIs Marder alemães também constam da lista. Os primeiros tanques ocidentais a serem entregues deverão estar operacionais no final de abril/início de maio.

Por outro lado, os peritos ocidentais estimam que existam 12.500 tanques russos de todos os tipos.

Em Janeiro de 2023, a NATO prometeu à Ucrânia entre 73 e 175 tanques (31 US, 14 GB, 14 Pol, 28 Alem, 53 Esp, 8 Norueg, 18 NL, 5 Fin, 4 Port). Dado que uma brigada blindada ucraniana é composta por 120 tanques, estes 175 tanques não serão suficientes para equipar duas brigadas completas. Kiev pediu 300 tanques pesados + 700 VCIs + 500 obuseiros, mas o arsenal ocidental não tem esse número.

E que mais? Armas ofensivas por definição, pelo que é fácil imaginar que os russos estão prontos a recebê-las. Quanto à manutenção, o que acontece se uma peça se avariar? A logística vai acompanhar? Cada peça de equipamento exige uma formação mais ou menos longa e específica.

E os satélites russos que podem seguir a sua longa viagem (uma fonte de desgaste precoce) desde a Polónia e a Roménia?

E o combustível (os tanques americanos são os que mais consomem combustível) e as munições, quando o “Ocidente coletivo” não prevê aumentar a sua produção antes de 2025-2026 e os cartuchos, mesmo que de calibre idêntico, não são intercambiáveis?

E o que dizer da absoluta superioridade aérea russa quando a ofensiva for lançada?

 

Conclusão (provisória): estamos muito longe das armas milagrosas cantadas pelos nossos media.

 

(fontes: dailymail.com, Institute for the Study of War, lavoiedelepee.blogspot.com, southfront.org, @war_mapper, oryxspioenkop.com, Ministère des Armées, Sim Tack, lecourrierdesstrateges.fr, mars-attaque.blogspot.com, cf2r.org, opex.360.com, fundstrat.com, southfront.org, Army Recognition, http://www.eurocontinent.eu, entredeuxguerres.fr, militaryland, https://www.youtube.com/@LesRapportsDeLUkraine, geopragma.fr; warontherocks.com; militaryland.net)

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O autor: Laurent Schang [1974-] é o fundador da editora Polémarque e é um colaborador regular da revista Éléments. É autor dos livros Le fondateur de l’Aikido, Morihei Ueshiba, éditions Pygmalion (2004) — Souvenirs d’Alsace-Lorraine 1870-1923, éditions Paraiges / le Polémarques (2011) — Kriegspiel 2014, éditions Le Retour Aux Sources (2014).

 

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